A violência começa com palavras

A violência começa com palavras

Um comentário crítico – como sempre – sobre o jornalismo atual

Hoje decidi repassar meus apontamentos e textos que escrevi para minhas aulas do curso Cultura Brasileira na Universidade de Hamburgo no semestre de verão do ano 2014. Ano no qual o Brasil e também a grande comunidade de brasileiros no norte da Alemanha comemoraram os 50 anos do golpe de estado que derrubou o governo progressivo de João Goulart em 1964 e que estabeleceu uma ditadura militar de cunho fascista que iria ‘cultivar’ a violência, a tortura e os assassinatos sistemáticos – durante 21 longos anos – contra aqueles que desejavam construir um Brasil de ideias livres e de pensamentos diversos.

Contudo neste comentário de revisão não vou focar no tratamento cotidiano ou histórico da era da ditadura militar, mas quero abrir um debate sobre o status do respeito inter-cultural na sociedade brasileira moderna e sobretudo dar um exemplo sobre a falta da sensibilidade social e cultural de alguns jornalistas atuais com alcance nacional e internacional; é que …

A violência começa com palavras …

Neste comentário vou analisar declarações extraidas de um artigo lido por milhões de brasileiras e brasileiros. Por meu respeito profundo aos leitores e ao juramento à honra jornalística vou revelar o nome do artigo – que é; ‘Os índios do Brasil’ – mas não vou chamar nem o nome do autor nem o nome do jornal, para não entrar numa ‘guerra de palavras’ com colegas jornalistas que já deveriam ter mudado seu discurso de difusão de tendências racistas durante os três últimos anos. O jornalismo é com certeza um fórum de opiniões, mas não um campo de batalha.

Na minha condição de antropólogo cultural e social, autor e jornalista livre busco ajudar a estabelecer um ambiente de discussão baseado na tolerância e no respeito a diferentes formas de vida e procuro eliminar a divulgação de julgamentos preconceitosos a fim de aumentar a tiragem ou a venda de artigos. Deste ponto de vista parte minha crítica referente ao relato ‘Os índios do Brasil’, que descreve as formas de vida de um povo indígena nas florestas tropicais do país, que é – segundo o artigo – ainda inexplorado e que acaba de ser ‘descoberto pela civilização brasileira e pelo homem branco’, a base de afirmações que são quase completamente superficiais, não comprovadas e que carecem totalmente da responsabilidade do exercício jornalístico.

O artigo começa com:

‘Eles vivem completamente isolados, exatamente como viviam há 500 anos’.

Isto é completamente errado! Primeiro, como podemos saber nós – o fulano común da modernidade, se nem os antropólogos ou arqueólogos podem responder esta questão – como estava a situação de uma cultura indígena ainda não investigada faz 500 anos? Segundo, nenhuma cultura é imóvel ou fixa, todas as culturas se movem e se transformam constantemente, tanto as culturas européias como as dos indígenas, isso é obviamente também assim no caso das culturas que ainda vivem supostamente ‘muito isoladas’.

E o fato de ‘estar isolados’ também parece ser muito falso a partir de uma análise científica. Quando já estamos falando sobre ‘tribos isoladas’ é que já sabemos que existem e na maioria dos casos isto significa que já houve algum contato com pessoas da nossa modernidade, mesmo que fosse pouco contato, com antropólogos por exemplo.

‘Nenhum desses grupos tem contato com outros grupos indígenas’.

Isso é muito improvável, quase todas as comunidades indígenas estão em contato com outras. Se não é por relações econômicas, pode ser também por estar em conflito com outros grupos. Eles enfrentam diariamente problemas muito parecidos com os nossos. Lidam com assuntos familares, políticos, econômicos e religiosos. Assim como vocês no resto do Brasil também fazem.

‘Flechas e bordunas são sua resposta à tentativa de conversa do homem branco’.

Sobre esta frase eu opino: é simplesmente racista! O artigo descreve aqui a imagem do alegado ‘índio selvagem e furioso’, pode ser que houve alguns lançamentos de flechas disparadas por indígenas e endereçadas a intrusos. No entanto deveríamos lembrar que eles tem razões compreensíveis quando desconfiam do ‘homem branco’, porque na maioria dos casos os habitantes da ‘civilização’ que entraram nas comunidades dos índios acabaram por levar exploração, destruição ou morte às sociedades indígenas.

O autor continua com suas afirmações deste modo …

‘Ao contrário de nós que queremos entender a realidade através da ciência, os índios explicam o sol, a chuva, o dia, a noite, e a morte através de mitos’.

A ideia dos poderes dos fenômenos naturais deve ser comum para muitos povos indígenas de pensamento tradicional, sem duvida; mas na Europa, na América do norte e mesmo em Brasília e São Paulo muitos explicam o mundo e os seus fenômenos também com uma mitologia, chamada Igreja Cristã ou Católica. O autor do artigo citado tenta aqui desenhar a imagem do ‘índio bobo e ingênuo’.

E por quê é que o autor escreve no início da frase: ‘Ao contrário de nós’?

Analisando o status atual da democracia brasileira podemos concluir que também no Brasil moderno – muito longe das florestas tropicais – o destino do povo depende da benção de uma força que parece ter partido do outro mundo vendo o alinhamento da bancada BBB, que aparentemente tem os poderes de submeter ao Brasil pluralista e vivaço a um domínio de líderes que proclamam uma ordem social de caráter meio clerical e meio hollywoodiano tipo cinema western.

O artigo termina com: ‘O homem civilizado […] deve respeitar sua cultura tão diferente da nossa’.

Aqui de novo está sublinhada a posição supostamente ‘superior’ do ‘homem branco’! Segundo esta declaração, os indígenas não têm ‘civilização’ então ? São ‘bárbaros’ ? Ou o que quer nos comunicar o autor aqui com sua reflexão? Poderíamos dirigir aquela pergunta aos nossos irmãos bolivianos, peruanos ou mexicanos se eles poderiam nos contar histórias sobre a existência ou não existência de civilizações indígenas.

Me despedindo da superficialidade neo-colonial deste citado ‘trabalho jornalístico’, péssimo no meu entender, quero acabar meu próprio relato com uma contemplação final: as guerras e os genocídios começam e começaram sempre com a ideia de que um grupo da sociedade seria ‘melhor’ ou ‘mais civilizado’ que outro grupo e os líderes tiranos sempre concentram seus discursos de repugnância contra grupos que históricamente já estavam sem grandes oportunidades de obter o poder sobre seu próprio destino algum dia. Daí que o inimigo do racista, fascista ou elitista sempre é um grupo que já levava o estigma de ser um grupo ou um ser ‘inferior’. Vitimar minorias ou até os mais fracos sempre é a solução mais fácil para os tiranos. O racista ou o radical em geral sempre vê entre as pessoas em primeiro lugar as diferenças que são – segundo ele – ‘incompatíveis com a própria cultura’ e usa a violência como recurso de assimilar as diferenças ao seu gosto, em vez de tentar chegar a um consenso que permita a existência e convivência de concepções do mundo diversos.

E ao final das contas, para mim é assim que a violência começa com palavras.

 

por Yamin Ben Hardouze

ZORRO SOCIAL Copyright

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