BLOGUES: Os jornais do futuro?

BLOGUES: Os jornais do futuro?

Afinal o que é que você está lindo neste momento?

No início deste século era ainda comum entre adolescentes o sonho de ter sua própria televisão no quarto. Nesta época a demanda das gerações jovens era pelos Playstation’s ou televisores, hoje a grande maioria da juventude reclama ter um próprio laptop, smartphone ou tablete. Aquele desenvolvimento é fruto do processo da virtualização do mundo no qual vivemos. Hoje quase tudo o que é relevante acontece online e quem não se estabelecer no web não vai chegar muito longe com os seus projetos nem ter sucesso. Esta regra é imprescindível e simbólica para os nossos tempos atuais e se refere sobretudo aos provedores de notícias. Devido a marcha triunfal da internet os números de vendas dos jornais em forma impressa se reduzem cada vez mais. Muitos jornais históricos estão ‘ameaçados de extinção’ e somente geram capital por meio da venda dos seus artigos na própria página virtual. Também a televisão luta contra seu estigma arcaico querendo manter seus espectadores como bonecos quietos em frente do monitor, enquanto a internet é interativa e cada usuário pode se tornar parte ativa do ‘jogo’, publicando próprias informações sendo repórter das suas notícias personalizadas. Uma das ferramentas mais usadas neste sentido de auto-publicações é o fenômeno do blogue.

Nascimento da interatividade colectiva

A ideia do blogue nasceu em 1994 na Universidade de Swarthmore no estado federal de Pensilvânia nos Estados Unidos de América, quando um estudante chamado Justin Hall simplesmente tinha o desejo de escrever um diário em versão virtual. Os blogueiros que surgiram ainda nesta fase precoce, também usavam a invenção principalmente como uma nova espécie de diário pessoal. Devido à rápida relevância que a internet ganhou, desde os anos noventa até hoje, os blogues já não conheciam limites em vista dos seus campos temáticos depois de um tempo relativamente curto de desenvolvimento inicial. Hoje em dia encontramos na rede blogues sobre qualquer tema: Ciências, esporte, turismo, artes, dicas para as horas vagas ou temas socioculturais e políticos, que são só alguns dos muitos assuntos de interesse para os mais de 112 milhões de blogueiros ativos ao redor do planeta (números extraídos pelo motor de busca de blogs Technorati).

Um blogue corajoso revela a confraternização entre governo e terroristas

A respeito dos blogues socioculturais e políticos do norte da América do Sul, se destaca a página  ‘Un Pasquín’ (blog.unpasquin.com) procedente da capital colombiana Bogotá. O Pasquim – como seria o nome traduzido ao português – é uma plataforma de opinião híbrida: Metade Blogue e metade jornal gratuito, entregado a leitores críticos em livrarias autônomas na cidade de Bogotá. O lema do Pasquim é:

‘Opinião em branco e preto; politicamente incorreto’.

Esta máxima da ênfase ao caráter satírico do blogue e seus artigos e comentários referentes aos acontecimentos atuais no âmbito sociopolítico da América Latina e sobretudo em relação a notícias colombianas. Apesar de comentar na maioria dos casos de maneira humorística, o Pasquim também se dedica à produção de artigos sérios sobre escândalos no sistema político na Colômbia e trata acontecimentos relativos ao palácio presidencial colombiano La Casa de Nariño.

No ano 2009 Vladimir Florez, fundador e redator principal do Pasquim, atreveu-se a escrever uma ampla reportagem reveladora sobre as figuras importantes do governo desta época (2002 – 2010).    A reportagem tratou das ligações da administração do mandatário ultra-conservador e neoliberal Álvaro Uribe Vélez e dos seus cúmplices familiares, empresariais e políticos, com bandos paramilitares: Exércitos privados e clandestinos que na Colômbia sempre estavam e ainda estão vinculados com latifundiários e personagens poderosas.

Uribe, governador do departamento Antioquia entre janeiro do ano 1995 até dezembro do ano 1997, e seus aliados solicitavam ou ao menos toleravam tortura e assassinatos de camponeses, opositores ou ativistas críticos durante o mandato regional do futuro presidente nacional. Além desses fatos Florez e o jornalismo investigativo do Pasquim, em cooperação com ativistas políticos, revelaram também as ligações de Álvaro Uribe com carteis do narcotráfico e com outras instituições ilegais com as quais a família Uribe e muitos dos integrantes do seu gabinete geraram dinheiro sujo, utilizando empresas fantasmas para lavagem de dinheiro ganhado pela venda de cocaína.

Um expemplo na luta contra acontecimentos ilegais na economia e na política

O valente e excelente jornalismo investigativo dos redatores do blogue o Pasquim iniciou um processo de revelações, seguidas por uma discussão nacional e inclusive uma investigação jurídica contra Uribe. Acontecimentos que até este momento ninguém no país imaginara. Enquanto as mídias grandes e clássicas continuavam com sua política de não querer criticar o oficialismo – em parte por receio de se tornar também em suspeitos, caso as investigações jurídicas tivessem descobertos vínculos entre as administrações das mídias com a família Uribe – um pequeno blogue formado por jornalistas da base alternativa e democrática ajudou esclarecer intrigas enormes nos estratos mais elitistas da Colômbia. Um país latino-americano que hoje e naquela época mencionada enfrenta problemas sociais e econômicos muito parecidos à atualidade sociopolítica do Brasil no ano 2017.

A existência de jornalismo crítico e alternativo na internet em blogues como na mencionada plataforma Un Pasquín, considero eu um dos sucessos mais importantes da era virtual. Sobretudo quando é a única maneira para distribuir vozes críticas que têm o objetivo de revelar informações sobre ações injustas ou até atrocidades cometidas por representantes eleitos pelo povo, enquanto outras mídias estabelecidas na mesma sociedade não acham relevante se pronunciar sobre violações do direito do cidadão e do direito do ser humano. É verdade que há pouco tempo ainda vivêssemos num espaço público no qual as ‘mídias clássicas’ se aproveitavam de uma posição privilegiada em relação ao fato de que elas eram centros de encontro para personagens de poder económico e de influência social, pelo qual preferiam guardar silêncio em situações quando o povo precisaria deles como detetive da verdade para criar uma sociedade – ao menos um pouco – mais justa. Entretanto, com o emergir das mídias livres e independentes como os blogues, os dias dos jornais ou canais de televisão com mero interesse lucrativo parecem estar contados.

 

por Yamin Ben Hardouze,

ZORRO SOCIAL Copyright

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